João do Rio dizia que a cultura do brasileiro era janeleira. Querendo ver e ser visto, ele adorava postar-se à janela de casa, ao anoitecer, a fim de analisar o movimento lá fora. E esse lugar limítrofe, a janela, fronteira entre o público e o privado, o lar e a rua, a intimidade e a exposição, seria o espaço por excelência do cronista.
Pois neste ótimo Anônimo nômade, Mário Araújo se coloca diante dos leitores de um modo semelhante: “Há muito abri a porta de Curitiba”, escreve ele, “mas ainda estou parado na soleira”. Um limiar simbólico, quase hesitante, de onde o autor se dispõe a observar tanto o mundo — Roma, Xangai, Havana e Brasília, cidades em que já morou, levado pela profissão de diplomata — quanto o tempo — o passado suburbano, o presente de instabilidade política e o futuro de estranheza tecnológica, nunca deixando de lado, é claro, aquela eterna desconfiança dos cronistas em relação às inovações que desumanizam, ao parasitismo publicitário e às ditaduras da utilidade e da certeza.
Em sua primeira antologia de crônicas, Mário também nos apresenta um vasto elenco de tipos carismáticos ou comoventes: o mendigo finlandês, a senhora calva, a criança de pijama, o músico cubano e, entre tantos outros, Wallace, o jogador que lê. Mas seu maior personagem, sem dúvida, é ele próprio, reconstruído a partir de uma infância simples, quando seu maior desejo era trabalhar entregando cartas ou cortando grama. Menino sempre atento à sucessão das copas de futebol, dividido entre o pai italiano, o avô alemão e o carrossel holandês, hoje sente de tudo uma espécie de saudade relutante. E especialmente do Brasil, este país diverso e tropical que, conforme já lhe explicou o filho cosmopolita, é um quebra-cabeças muito complicado. [Luís Henrique Pellanda]


Mulheres de moto pelo mundo Aqui estão reunidas 45 crônicas escritas a partir das experiências vividas por um grupo de 17 mulheres que viajam juntas de motocicleta há mais de uma década, com seus maridos, namorados ou companheiros, como garupas ou pilotas. Essas histórias atravessam milhares de quilômetros, dezenas de países em diferentes continentes, e tratam de amizade, companheirismo, tolerância, superação, medo, angústia, esperança, vaidade… – enfim, sentimentos que falam a todas as mulheres e em especial àquelas que têm coragem de experimentar o novo, sair da zona de conforto, ver o mundo passando veloz enquanto exploram as mais diversas estradas e paisagens. O resultado é um livro absolutamente original, cheio de humor e perspicácia, em que o olhar feminino vai muito além da beleza dos cenários para revelar ao leitor, sob os mais variados pontos de vista, um mundo cheio de novidades e emoções.
Recortes
Era uma vez futebol (Crônicas & Contos) 

